Pinturas do retábulo da Catedral de Lamego

Criação dos Animais, Anunciação, Visitação, Circuncisão e Apresentação no Templo

Vasco Fernandes, 1506-1511

Pintura a óleo sobre madeira

Proveniente: Catedral de Lamego. Retábulo do altar-mor

Invs. 14, 15, 16, 17, 18

Os cinco painéis faziam parte de um políptico para a capela-mor da Sé de Lamego, encomendado pelo bispo de Lamego, D. João de Madureira (1503-1511), ao pintor viseense Vasco Fernandes, celebrizado pelo epíteto “Grão Vasco”.

Apesar de restarem apenas cinco painéis de um conjunto inicial de vinte, o contrato de encomenda estipulava que Vasco Fernandes devia executar um retábulo constituído por um conjunto de 20 painéis pintados, que seria composto por esta ordem: dois painéis ao centro, figurando o de cima Deus Pai com o globo na mão e rodeado de anjos, e o de baixo, a Virgem, sentada, com o Menino ao colo; em três fieiras com três quadros de cada lado, cenas da Criação do Mundo, da Criação de Adão, Infância de Jesus, desde a Anunciação até à Apresentação no Templo.

O retábulo manteve-se no local para que foi destinado até que obras realizadas no séc. XVIII o fizeram apear e desmembrar.

Em 1910 encontravam-se os painéis na Sala do Capítulo, mas dos vinte painéis iniciais, apenas cinco se viriam a salvar. Em 1912, passam para o edifício do antigo paço episcopal e incorporados na coleção do Museu quando este foi criado, em 1917.

Considerado um dos principais responsáveis pela renovação da pintura portuguesa no século XVI, o pintor Vasco Fernandes transformou-se, no século XVIII, num pintor-herói à escala nacional, atribuindo-se-lhe a autoria de praticamente toda a pintura antiga. Este fenómeno de exaltação da figura do pintor poderá explicar-se pelo facto de ter inaugurado um período brilhante da pintura portuguesa, numa região onde não havia qualquer tradição e pelo fascínio que o realismo da sua linguagem exerceu sobre as sucessivas gerações de espetadores.

CRIAÇÃO DOS ANIMAIS

O painel da Criação dos Animais estava integrado na fiada superior do retábulo, que incluía, segundo a versão do Génesis, os seis dias das Criação.

O Padre Eterno aparece em primeiro plano, como figura vigorosa, ocupando grande espaço da composição, com os atributos de máxima majestade – a coroa imperial e o manto que num vermelho muito expressivo parece esvoaçar.

Em primeiro plano aparece um cavalinho branco, com as patas de frente fletidas. Ao lado, um pouco mais discretos, encontram-se um boi, um cordeiro, um lobo e um porco. Mais longe num fundo de floresta distinguem-se diversas aves e um veado, um elefante e um unicórnio.

A teatralidade da figura do Padre Eterno é acentuada pela coroa, pelo pé suspenso e pelo longo manto, que num vermelho muito expressivo se agita, realçando, também, a linha diagonal da composição.

ANUNCIAÇÃO

Apresenta como figura em maior evidência o anjo Gabriel, a trazer a mensagem do Céu, e a Virgem que religiosamente o escuta. O anjo, ajoelhado, segurando com a mão esquerda o cetro de ouro e um pergaminho triplamente selado, apresenta à Virgem a mensagem aí inscrita. O anjo impõe a sua presença através do olhar e da verticalidade do braço esquerdo, que indica a presença divina em forma de pomba. A cena passa-se dentro de uma habitação povoada por objetos de efeito decorativo ou de uso quotidiano. No medalhão colocado na parede do fundo, Eva segura a maçã com a mão esquerda, indicando com a mão direita a Virgem. Ainda na parede do fundo, na parte superior, surge a representação miniatural em grisalha de três personagens identificadas com os temas do Antigo Testamento: o Profeta Ezequiel; Gedeão e o velo Probatório, e, muito provavelmente, Moisés e a Sarça Ardendo. À direita, junto do armário mural, num pequeno quadro, a figura do Padre Eterno. Aparece ao centro da composição um fogareiro, um elemento tipicamente português. Uma janela aberta, colocada ao fundo, do lado esquerdo, faz-nos a ligação com o exterior, onde figuram algumas construções de caraterísticas flamengas.

VISITAÇÃO

Representação do encontro bíblico de Nossa Senhora e Santa Isabel, sua prima. As figuras bem estruturadas e envoltas em largos panejamentos dominam o primeiro plano desta cena que se prolonga por uma magnífica paisagem de fundo. Para além da paisagem dominada por arquiteturas de rigorosas geometrias à maneira nórdica, assinala-se um volume, à esquerda, que figura como uma paisagem suspensa formada por frondosa vegetação. Um viandante (S. José?) puxa um burrito. Duas figuras femininas, estrategicamente colocadas por trás da Virgem, são uma alusão provável às suas virtudes: Formosura da Castidade, na figura ricamente vestida que segura um cesto com frutos, e a Humildade, na outra. Dois anjos, agitando-se no céu, encimam a composição.


CIRCUNCISÃO 

Representação da Circuncisão do Menino numa composição concentrada e vigorosa. No plano superior, um retábulo constituído por três corpos repartidos em edículas e preenchidos por miniaturais esculturas em grisalha – onde figuram temas do Antigo Testamento: ao centro, Deus Pai sobre as Tábuas da Lei, por sua vez ladeadas por duas figuras em adoração, talvez o Rei David e o profeta Elias; à esquerda, vê-se o Sacrifício de Isaac; e, à direita, o episódio do Burro de Baalão – simbolicamente mostrado por dois anjos que, suspensos, seguram os longos cortinados verdes.

As divisas do bispo mecenas estão representadas no escudete que remata o pequeno retábulo e, muito provavelmente, será o próprio bispo que figura ao centro da composição, entre os personagens que se dispõem em redor do Menino.

Numa mesa de pé poligonal assente sobre leões e coberta com um brocado, figura o Menino sobre uma toalha que se estende ao rosto lacrimoso da Virgem, esbelta e juvenil, incomparavelmente mais nova que o esposo, envelhecido e calvo. Ao lado da Virgem está outra figura feminina. É talvez Stª Isabel.

A cerimónia, de uma intimidade perfeita, realiza-se numa espécie de pequena capela, estilo Renascença. No limiar do pórtico lateral estão duas figuras femininas (possivelmente as Santas) em atitude de oração.

APRESENTAÇÃO NO TEMPLO

Figuram nesta pintura, no interior de uma capela com características renascentistas, a Virgem, São José e o velho Simão com o Menino sobre os braços e duas mulheres jovens, colocadas à esquerda, uma das quais segura uma cesta com pombos da oferenda. No lado oposto, a figura da anciã Ana. São Simião veste um manto de brocado castanho dourado, rematado por tintinelas diferentes. Ao fundo duas janelas deixam ver uma paisagem nórdica e, sobre os personagens, dois anjos suspensos que assinalam a presença da Arca da Aliança, reservada sob um dossel. As janelas e o óculo permitem a entrada da luz, contribuindo para um efeito cenográfico notável.