História

História do edifício e fundação do museu

Os antecedentes da criação do museu

Fachada do Paço Episcopal, anterior a 1906.
Imagem gentilmente cedida por Joaquim Duarte Correia.

O Museu de Lamego encontra-se instalado no antigo paço episcopal, num imponente edifício que se situa no largo de Camões, na «baixa» da cidade, onde se concentram diversos edifícios de significado histórico – constituindo a Catedral a norte do edifício o mais importante – e diversas casas solarengas dos séculos XVII e XVIII que albergam atualmente diferentes serviços. Em frente ao largo de Camões situa-se uma das principais artérias da cidade, que se estende por um jardim e avenida arborizados que culminam no arranque do monte de santo Estêvão, dominado pelo monumental escadório, que faz a ligação do Santuário de Nossa Senhora dos Remédios à cidade. À direita, situam-se o antigo Seminário Jesus, Maria, Ana, um edifício dos séculos XVIII e XIX que é atualmente propriedade do Exército Português, e o Teatro Ribeiro Conceição, que ocupa um palacete setecentista, que foi Hospital da Misericórdia.

Perspetiva a partir do Museu de Lamego. Décadas de 1930-40.
Imagem gentilmente cedida por Joaquim Duarte Correia.

Reedificado na segunda metade do século XVIII, por D. Manuel de Vasconcelos Pereira (1773-1786), o palácio serviu de residência a oito prelados que ocuparam o governo da diocese de Lamego entre 1773 e 1911, altura em que, no cumprimento da Lei da Separação do Estado da Igreja (de 11 de abril de 1911) promulgada pela República recém implantada, o imóvel e todo o recheio foram transferidos para a posse do Estado. Foram interrompidos, desse modo, os trabalhos de organização de um museu de arte decorativa e ornamental a que o bispo D. Francisco José Ribeiro de Vieira e Brito (1901-1922) devotava grande empenho, a partir das coleções de tapeçaria, pintura, mobiliário, ourivesaria e paramentaria que já existiam no palácio e da recolha de obras de arte dispersas pela diocese.

Paço episcopal. Sala do Trono, c. 1908
in José Júlio Rodrigues, O Paço Episcopal de Lamego ,1908 (Separata do Boletim da Associação do Magistério Secundario Official). Fotografia J. J. Rodrigues

O reconhecimento do magnífico recheio artístico que se guardava no antigo paço episcopal conduziu a que, logo nesse ano, a Câmara Municipal, enformada pelo programa da República de educação e de criação de museus para a instrução e cultura dos cidadãos, solicitasse ao Governo o edifício e os bens móveis arrolados a norte do distrito para a constituição de um museu regional. Para seu diretor, foi apontando o abade de São João de Tarouca, Vasco Almeida Moreira, que renunciou ao cargo em 1915, sem nunca ter chegado a tomar posse, pois haveria que aguardar-se por mais seis anos até que o Estado determinasse a criação de um museu em Lamego.

Efetivamente, a esta primeira iniciativa da autarquia lamecense, suceder-se-iam outras que prenunciariam a fundação do Museu. No ano seguinte, com o objetivo de poderem ser vistas e apreciadas pelos milhares de forasteiros que habitualmente ocorrem à Romaria de Nossa Senhora dos Remédios, nos dias 6, 7 e 8 de setembro, a comissão concelhia de administração dos bens arrolados em Lamego, à semelhança do que havia acontecido noutras cidades, solicita a autorização para usar o espaço do antigo paço episcopal para a realização de uma exposição de todas as riquezas sacras de valor histórico e artístico que foram arroladas na cidade. Dois anos mais tarde, em 1914, perante a ameaça da criação de um museu regional em Viseu, para onde seriam deslocadas as pinturas de Grão Vasco existentes nos mosteiros de Santa Maria de Salzedas e de São João de Tarouca, a autarquia opõe-se veementemente, alegando que as mesmas deveriam vir para Lamego, onde iria ser criado um museu, causa que viria a ser acarinhada por destacadas figuras da política e cultura portuguesas, com relevo para Manuel Monteiro, Alfredo de Sousa, Joaquim de Vasconcelos e José de Figueiredo que, na altura, ocupava o cargo de diretor do Museu Nacional de Arte Antiga. Sobre este último, o jornal A Capital (4 de julho de 1914) anuncia que, por sua iniciativa e “inspirado pelo grande intuito educativo e muito principalmente o desejo patriótico de arrancar á perdição obras de arte (…) ignoradas do grande público”, são criados dois museus regionais – um em Lamego e outro em Évora – que se esperava, constituíssem “semente de outros noutras cidades em que haja abundância de objetos artisticos se fomentem tesouros como aqueles que dentro em pouco serão organizados”. Em 1916, e depois de Lamego ter sido incluída numa proposta de dotação orçamental destinada a museus regionais, a par de Aveiro, Bragança, Évora, Faro e Viseu, o Ministério de Instrução Pública determina a realização de uma missão a Lamego, para a escolha do local apropriado para a instalação do museu, assim como das espécies artísticas e arqueológicas que dele deveriam fazer parte, e à escolha de pessoa idónea que viesse ocupar o cargo de diretor. No ano seguinte, o Decreto n.º3074, de 5 de abril, cria finalmente o “Museu de Obras de Arte, Arqueologia e Numismática”, constituído por obras de pintura, tapeçaria e mobiliário, existentes no paço dos bispos, para além de paramentos e ourivesaria dispersos pela igreja das Chagas e «hospital novo». Para diretor, foi nomeado o artista lamecense João Amaral que abriu o Museu, ocupando cinco salas do edifício, a 21 de maio de 1918.

O projeto de beneficiação e ampliação do Museu (DGEMN)

1.ª fase: 1929-1939

A instalação do Museu numa parcela do antigo palácio episcopal, de início provisória, em conformidade com o Decreto que o instituiu, viria a tornar-se definitiva. De facto, o edifício do antigo hospital da Misericórdia, para onde se tinha determinado a sua transferência, acabou por ter sido destruído, antes das obras de adaptação necessárias, por um calamitoso incêndio que lhe deixou incólume apenas a fachada. O velho casarão em ruínas foi posteriormente adquirido, em 1924, pelo Comendador Ribeiro Conceição, que procedeu à sua reedificação e transformação numa grandiosa sala de espetáculos – o Teatro Ribeiro Conceição –, malogrando-se, desta forma, a intenção de vir a ser ocupado pelo museu. Esta vicissitude viria a ser determinante para que desse início a um longo e faseado processo de beneficiação e adaptação do edifício, assente na campanha de obras públicas levada a efeito durante o Estado Novo, sob a alçada da Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), que tiveram início da década de 30 e se arrastaram até aos primeiros anos da década de 70 do século passado. Pretendia-se, através do alargamento do museu a todas as dependências do antigo paço – o que só viria a acontecer em 1968, quando o quartel da GNR foi desalojado e o museu pode finalmente tomar posse plena do edifício –, engrandecer um dos museus de província que mais preciosidades possuía, dotando-o de condições que permitissem apresentar condignamente as coleções, de acordo com modernas práticas museográficas.

Da primeira campanha de obras, iniciada pelo arquiteto António do Couto Abreu Baltazar de Silva Castro e na qual intervieram sucessivamente os engenheiros Henrique Artur de Moura Coutinho d’Almeida d’Eça (1929-1934), Jorge Manuel da Silva (1935) e Arala Chaves (1937-1939), para além das obras que interessavam à conservação do edifício, como a renovação parcial da cobertura e a reintegração de pormenores da fachada que haviam sido deturpados, constou o restauro e substituição de tetos e soalhos, a aplicação de lambrins apainelados e alizares em castanho «da região» e a adaptação e substituição de portas, portadas e caixilharias. Dotaram-se, deste modo, as dependências que o museu ocupava no antigo paço, no primeiro piso da ala sul, de uma organização lógica e coerente, obtida através da uniformização de formas e materiais, que ainda hoje constitui uma marca identitária do museu.

Sala de exposição das tapeçarias, c. 1940. Museu de Lamego (arquivo histórico)

 2.ª fase: 1942-1944

Pátio interior com lago e respetiva taça, década de 1950
Museu de Lamego (arquivo histórico)

Iniciados os arranjos no piso nobre, e à medida que iam sendo libertadas para o museu dependências do rés-do-chão, anteriormente cedidas a outras entidades, entre 1942-1944, teve lugar um segundo projeto de obra de adaptação e restauro do edifício, assinado pelo engenheiro António Agnelo Teixeira Barbosa de Abreu. O projeto daria origem a uma transformação do antigo paço em planta, de modo a reforçar a intenção de se destinar o edifício apenas a museu e biblioteca municipal. Exteriormente, foi alterada a volumetria do edifício, com a construção de uma arcada em cantaria, na fachada posterior, e dado um novo arranjo no jardim do pátio, com a instalação de um lago e respetiva taça. No interior, seguindo a orientação anteriormente adotada, concluíram-se os trabalhos no primeiro piso de revestimento de tetos, soalhos e alizares e, no rés-do-chão, para além da abertura de vãos, eliminação de outros e de trabalhos de cantaria, que alteraram a configuração do espaço, cobriram-se os tetos em madeira com pranchas do tipo «camisa e saia» ou de caixotão, e os pavimentos em tijolo, mosaico ou lajeado em cantaria, em harmonia com o uso a dar às divisões. 

Rés-do-chão. Sala de escultura em pedra. Década de 1940. Museu de Lamego (arquivo histórico)

Entretanto, na esteira da política de obras públicas empreendida pelo Estado Novo, decorriam a bom ritmo em Lamego os trabalhos de recuperação de edifícios e monumentos nacionais – com a intervenção da DGEMN a estender-se à Catedral (1936), igreja de Santa Maria de Almacave (década de 1940) e Castelo (1940) -, de construção de novas infraestruturas, abertura de novas artérias e arranjos urbanísticos diversos. Nesse âmbito, e sob o impulso do mega projeto das Comemorações do Duplo Centenário, realizadas em 1940, o largo de Camões sofreu uma total remodelação, que deu origem a uma alteração radical do enquadramento da fachada principal do antigo paço episcopal, devolvendo-lhe monumentalidade e destaque. No alinhamento da porta principal do museu foi erigido o monumento ao bispo D. Miguel de Portugal (1951), ficando-se a dever a estátua ao escultor Francisco Franco e ao arquiteto Cotinelli Telmo o projeto do pedestal e do arranjo do largo envolvente, com um lajeado de traçado geométrico guarnecido por bancos de pedra e canteiros com vegetação rasteira e a presença pontual de espécies de maior porte, com que anos mais tarde se viria a substituir o antigo jardim arborizado.

Perspetiva do Largo de Camões, c. 1951. Imagem gentilmente cedida por Joaquim Duarte Correia.

3.ª fase: da década de 1960 à de 1990.

Na década de 1960 e início da seguinte, já sob a direção de Abel da Silveira Montenegro Flórido, o museu voltou a ser alvo da atenção da DGEMN, que pode finalmente efetuar a desejada ampliação do museu a todo o edifício, na sequência da disponibilização das instalações que eram ocupadas pela Biblioteca Municipal (1964) e GNR (1968). Depois de concluídas, em 1966, as obras nas dependências da ala sul do 1.º piso, ocupadas pela Biblioteca, passou o museu a dispor de uma ampla área de reserva e de mais salas de exposição. Os trabalhos prosseguiram, entre 1968-1971, com adaptação de toda a ala norte, datando desse período a sala de conferências e novas salas para exposição. Consolidadas as obras de adaptação do edifício, tratou de resolver-se questões relacionadas com a segurança, acessibilidades e a criação de uma área funcional, com biblioteca, secretaria, diversos gabinetes e oficinas, que só ficariam concluídas nos inícios da década de 1990.

As indispensáveis obras de adaptação e remodelação introduzidas no edifício, de modo a alterar-se a função, de residência episcopal a museu, não lhe retiraram o caráter de uma construção palaciana de província, em uso na centúria de Setecentos, organizada em torno de um pátio central e ampla escadaria interior de acesso ao piso nobre, que conserva como marca distintiva do uso primitivo, o brasão prelatício na fachada principal. No primeiro piso, conservou-se praticamente inalterada a capela privada mandada edificar por D. Manuel de Vasconcelos Pereira. De planta octogonal e decorada com frescos no teto, constitui uma evocação do gosto dos antigos prelados. 

Capela privada do antigo Paço Episcopal integrada no Museu. © Museu de Lamego. Fotografia de José Pessoa