Coleção

O Museu de Lamego possui uma coleção que reflete de modo muito expressivo ideologias vigentes e modos de pensar os museus e o património cultural, entre a 1.ª República e o fim do Estado Novo.

Ao longo dos anos muito ampliada por espécies vindas de diversas proveniências, mantém-se como núcleo mais significativo e que melhor define a coleção do museu, aquele que esteve na base da criação dos museus em Portugal, durante a 1.ª República, relacionado com o destino dado ao vasto património artístico e cultural de origem eclesiástica, de que o Estado tomou posse, na sequência da nacionalização dos bens da Igreja, após a implantação da República.

Seriam precisamente os bens arrolados no antigo paço episcopal (edifício incluído), cabido e fábrica da Sé de Lamego, que estiveram na origem da criação do museu, em 1917. Entre eles, os objetos que faziam parte do recheio do palácio, onde avulta o importante núcleo de tapeçarias flamengas e francesas datadas do primeiro terço do século XVI e do XVII, obras de pintura portuguesa e estrangeira dos séculos XVII e XVIII, mobiliário da mesma época e meios de transporte dos séculos XVIII e XIX, para além de alfaias religiosas – paramentos e ourivesaria –, de um fundo de livro antigo e códices relacionados com o governo episcopal e de um reduzido núcleo de escultura medieval, proveniente da igreja de São Pedro de Balsemão e do Mosteiro de São João de Tarouca, que havia recolhido ao paço. Do cabido e fábrica da Sé de Lamego, juntar-se-iam peças de mobiliário, ourivesaria e pintura dispersas por várias dependências do Cabido, com destaque para os cinco painéis que integravam o retábulo pintado por Grão Vasco na primeira metade do século XVI e as obras atribuídas aos pintores Simão Antunes e André Reinoso.  

Postal | Edição da Câmara Municipal de Lamego e Grupo de Amigos Pró Museu e Turismo (c. 1930)

Nos anos seguintes, a coleção, de natureza essencialmente eclesiástica, pese embora a presença de objetos de sumptuária e artes decorativas, seria complementada por novas incorporações, sublinhando-se escultura, capelas e altares em talha dourada dos séculos XVII e XVIII, provenientes do extinto mosteiro das Chagas de Lamego, e obras de pintura existentes na antiga igreja da Misericórdia e capela do Recolhimento de Santa Teresa, ambas desaparecidas.

Nos primeiros anos de existência, a coleção encontrava-se distribuída por seis salas que o museu ocupava no primeiro piso do antigo paço episcopal, destinando-se quatro das dependências à exposição de tapeçaria e as restantes a pintura, escultura e mobiliário de diferentes épocas. Em 1926, o museu passa a contar também com a «sala do tesouro», montada na capela privada do antigo paço episcopal, a partir dos objetos de ourivesaria e paramentaria arrolados no paço, que deram entrada no museu, após terem permanecido durante largo período depositados na igreja e no novo hospital da Misericórdia. 

Postal | Edição da Câmara Municipal de Lamego e Grupo de Amigos Pró Museu e Turismo (c. 1930)

Os finais dos anos vinte, até meados dos anos quarenta, corresponderam a um período de expansão do museu, sob a influência do regime político do Estado Novo, que pretendia engrandecer um dos mais importantes museus da província, quer através da ocupação de todas as dependências do antigo paço episcopal, quer através do alargamento da coleção a novas espécies, numa tentativa de integração de aspetos ligados à arqueologia e etnologia, como forma de valorização e de afirmação do povo português e da sua identidade nacional.

Corresponde a esta época, a recolha para o museu de objetos de valor arqueológico – peças de heráldica, tumulária, estelas funerárias, lápides, esculturas e fragmentos arquitetónicos de edifícios demolidos -, que se encontravam arrecadados na Câmara Municipal, por não terem sido aproveitados nas intervenções de restauro de monumentos e nos diversos arranjos urbanísticos promovidos pelo Estado Novo. Paralelamente, o grupo de «Amigos Pró Museu Regional, Biblioteca e Turismo», criado em 1924, seria, por sua vez, responsável por uma intensa atividade de aquisição de novos objetos, alargando o âmbito da coleção aos domínios das indústrias tradicionais e etnografia, com a compra de trajes e acessórios, faianças, metais, luminárias, moedas, gravuras, armas, equipamentos e utensílios, que deram entrada no Museu entre 1929 e 1933. Seria com este conjunto que se organizaram as secções de arqueologia e etnografia, que viriam ocupar o espaço que lhes tinha sido destinado, na “nova” ala do museu, depois de concluídas, em 1944, as obras de ampliação da área expositiva ao rés-do-chão.

Exposição da secção de arqueologia, no pátio interior, c. 1930. Postal | Edição da Câmara Municipal de Lamego e Grupo de Amigos Pró Museu e Turismo (c. 1930)

A partir dos primeiros anos da década de 1940, até aos nossos dias, a ampliação do acervo deve-se principalmente ao reconhecimento do museu como um meio privilegiado de perpetuação de memórias, através da doação de objetos ligados ao universo pessoal ou familiar dos seus proprietários. O museu reúne mais de meia centena de nomes associados a doações ou legados, com enfoque nas artes decorativas de finais do século XVII até meados do século XX. Como exemplo, apontam-se as coleções do poeta lamecense Fausto Guedes Teixeira (1941), do advogado Dr. Vasco de Vasconcelos (1951), do primeiro diretor do Museu de Lamego, João Amaral (1956), do Governador de Timor, Comandante Humberto Leitão (1959-1974), de D. Ema Guedes Teixeira Vieira de Magalhães (1962), do médico Dr. João de Almeida (1964-1991), do Capitão Raul Videira Xavier de Morais Sarmento (1965), de António Rodrigues Tavares (1981) e D. Maria Adelaide Alegria David Calder (1983). Mais recentemente, com a integração dos espólios fotográficos do Monsenhor Correia de Noronha (2010) e de D. Ana Maria Pereira da Gama (2012), o museu ficaria dotado também de um valioso fundo de documentos visuais da primeira metade do século XX.

Sala de Fausto Guedes Teixeira, c. 1942
Museu de Lamego (arquivo histórico)

Atualmente, a exposição das coleções, organizada por tipologias e de acordo com critérios cronológicos, ocupa 26 salas distribuídas pelos dois pisos do edifício. No rés-do-chão, são apresentados os meios de transporte, escultura, materiais pétreos e cerâmica e mobiliário, destinando-se ao piso superior a exposição de pintura, escultura, tapeçaria, ourivesaria (religiosa e civil), paramentaria, escultura religiosa, paramentaria e mais mobiliário. Em reserva, entre outras representadas na exposição permanente, encontram-se, as coleções de fotografia, desenho, gravura, numismática, armas e etnografia.